O debate passivo e o texto reactivo

Na segunda-feira 8 de dezembro, foi-nos apresentado, num debate que prometia falar de religião, um painel pouco diferenciado (representantes de três tradições monoteístas com um testamento em comum), o que empobrece, desde já, o espelho do mosaico diverso e riquíssimo de crenças e tradições que pintam a realidade. Ainda assim, um debate com três representantes de tradições religiosas é uma oportunidade rara. Para mais quando é acontece e é emitido para um grande público. No entanto, a rara oportunidade passou ao lado das expectativas e os representantes ficaram-se pelas suas tradições em vez de alcançarem um colectivo. Não se trata de ecumenismo, trata-se de inter-religiosidade. Não se trata de uma piscina monoteísta com três pistas diferentes. Dizer que o Islão, o Judaísmo e o Cristianismo partilham a mesma água não será uma ofensa, pelo contrário, seria uma homenagem ao pai Abraão. E de um pai comum para uma multiplicidade de pais: que colectividade é esta? Que religiões quando se fala de religião?

Perguntava a moderadora do debate “Mas afinal, é tudo o mesmo?”, falava de cultos, de tradições que se assumem como religiosas e ou espirituais. A pergunta inocente e contaminada “É tudo o mesmo?”, teve respostas evasivas, e a única visão que procurou conciliar religiões e espiritualidades sob a mesma legitimidade veio da participação fora do painel, numa jovem, que assume um “sim, é tudo o mesmo”. A coragem a esta jovem pertence. Nenhum dos experimentadíssimos líderes ensaiou uma resposta sobre “Que colectivo na religião?”. Esta falta de ousadia por parte dos líderes poderá dever-se à franca premissa de um “Não somos todos o mesmo e não somos todos iguais”, e, se assim for, poderemos observar o reconhecimento da diversidade inerente à diferença deste todo em que “não somos todos iguais”. Haja múltiplos e diferentes caminhos. O diálogo não perde na valorização da diferença, perde sim quando desvalorizamos a dignidade total que nos abarca como comuns que se identificam neste todo complexo e diverso. Quando acreditamos que ao não ser o mesmo que eu, o outro perde, e eu ganho. À pergunta desta moderadora, eu responderia “Não somos iguais, mas partilhamos a mesma intenção de compreender e encontrar sentido no mundo em que vivemos. Somos diferentes sim, mas somos comuns, quando partilhamos a mesma espécie, a mesma casa, as mesmas dúvidas, os mesmos êxtases e paixões. Somos diferentes, mas somo-lo em união.”

As verdades (plural mesmo) são condição na busca, nas procuras de sentido. Quando escolhemos simplificá-las, resumi-las, corremos o risco de perder, no processo, a informação que as construiu. Assumir que um espectro de visões pode ser representado por uma selecção de três visões semelhantes é, de facto, roubar a uma riqueza que se justifica a ela própria.

Paulo Borges, aquando da expectativa pela nomeação do novo Papa católico, partilhou com a Antena 1 o seu desejo por um líder cristão que soubesse promover o Diálogo Inter-Religioso e que finalmente o fizesse sair do trinómio monoteísta. Neste debate televisivo, este desejo não foi concretizado. Ainda.

À pergunta de partida “Deus tem futuro?”, esta é a minha resposta: Deus, como parte do fenómeno do divino, sobrevive sincreticamente nas emergências espirituais. Como último apelo defendo o seguinte: O debate religioso tem de se abrir além dos monoteísmos, porque isso é limitar-lhe a sobrevivência. Sobreviverá como Deus, Deusa, Deuses, Deusas. Enquanto houver pessoas, sobreviverá como conhecimento experimentado e como experiência por descobrir.

MV

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